Avisos Paroquiais
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REFLEXÃO DA PALAVRA DE DEUS

18/10/2009

Comecemos observando o evangelho. Notemos como os dois irmãos, Tiago e João, se dirigem a Jesus: “Queremos que faças o que vamos pedir”. Isto não é modo de pedir nada ao Senhor, isto não é modo de rezar! Aqui não há humildade, não há abertura para procurar a vontade do Senhor a nosso respeito, mas somente o interesse cego de realizar nossa vontade! Quanta loucura e presunção! Muitas vezes, é assim também que rezamos, com esse tom, com essa atitude! Recordemos a palavra do Apóstolo: “Não sabemos o que pedir como convém” (Rm 8,26). Somos tão frágeis, tão incapazes de compreender os desígnios de Deus, que nossos pedidos muitas e muitas vezes não são segundo o coração do Senhor e, portanto, não são para o nosso bem! Como, então, pedir de acordo com a vontade do Senhor? Escutemos ainda são Paulo: “O Espírito socorre a nossa fraqueza. O próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (Rm 8,26). Eis! É somente quando nos deixamos guiar pelo Santo Espírito do Cristo, que compreendemos as coisas de Deus e pediremos segundo Deus! Nunca compreenderá o desígnio de Deus, quem não pede segundo Deus... e nunca pedirá segundo Deus, quem não se deixa guiar pelo Espírito de Deus! Aqueles dois não pediam segundo Deus, não suplicavam segundo o Reino, mas segundo seus interesses: queriam glória, queriam honra, queriam os primeiros lugares, queriam seus interesses, de acordo com sua lógica e modo de pensar! A resposta de Jesus demonstra o seu desgosto: “Vós não sabeis o que pedis!” E o Senhor completa com um desafio – que é para os dois irmãos e para todos nós, caros irmãos e irmãs: “Podeis beber o cálice que eu vou beber? Podeis ser batizados com o batismo com que vou ser batizado?” De que cálice, de que batismo Jesus está falando? Do seu sofrimento, do seu caminho de dor e humilhação, pelo qual ele entrará no Reino e o Reino virá a nós: “O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos. Oferecendo sua vida em expiação, ele terá descendência duradoura e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor. Por esta vida de sofrimento, alcançará a luz e uma ciência perfeita. Meu Servo, o justo, fará justos inúmeros homens, carregando sobre si suas culpas”. Este é o caminho de Jesus: fazer-se servo humilde e causa de nossa salvação. Isso os discípulos não compreendiam... nem nós compreendemos! Também a nós o Senhor convida a participar do seu batismo e do seu cálice. Escutemos mais uma vez, são Paulo: “Não sabeis que todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, é na sua morte que fomos batizados? Pelo batismo nós fomos sepultados com ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova. Porque se nos tornamos uma só coisa com ele por uma morte semelhante à sua, seremos uma coisa só com ele também por uma ressurreição semelhante à sua” (Rm 6,3-5). Podeis ser batizados no meu batismo? Estais dispostos a mergulhar vossa vida no meu caminho de morte e ressurreição, morrendo para vós mesmos e buscando a vontade do Pai de todo o coração? Eis o que é ser batizado em Cristo! E nós o fomos! O desafio agora é viver o batismo no qual fomos batizados, tornando-nos, em Cristo, criaturas novas, abertas para a vontade do Pai, como Jesus. E, não somente ser batizado no batismo de Jesus, mas também beber o cálice de Jesus: “Todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha” (1Cor 11,26); “O cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo?” (1Cor 10,16). Vejam só: comungar na eucaristia é aprofundar aquilo que já começamos a viver no batismo: fazer da vida uma vida em comunhão com o Senhor na sua morte e ressurreição! Não se pode nem sonhar em ser cristão pensando num caminho diferente, num modo diverso de viver! Tiago e João não tinham compreendido isso; os Doze também não compreenderam; nós, tampouco, compreendemos! Observem ainda como os dois irmãos são presunçosos: quando Jesus pergunta: “Podeis beber o cálice? Podeis ser batizados?” Eles respondem: “Podemos!” Na ânsia pelos primeiros lugares, no desejo de obterem o que pedem, prometem aquilo que somente com a graça de Deus seriam capazes de prometer! A mesma lógica nossa, nosso mesmo procedimento, tantas vezes! Como Pedro, que, mais tarde dirá: “Darei a minha vida por ti” (Jo 13,37); e de modo tão presunçoso quanto o dos dois irmãos, exclamará: “Ainda que todos se escandalizem, eu não o farei!” (Mc 14,29). Pobre Pedro, pobres Tiago e João, pobres de nós! Sem a graça de Deus em Cristo, que poderemos? Vamos nos escandalizar, vamos fugir da cruz, vamos descrer no Senhor, vamos abandonar o caminho! Como não compreendemos a estrada de Jesus! Tudo é graça. Por isso Jesus diz que, ainda que eles bebam o seu cálice e sejam mergulhados no seu batismo, ainda assim, será graça de Deus conceder os primeiros lugares... Não podemos cobrar nada de Deus: “É para aqueles a quem foi reservado!” Finalmente, a atitude dos outros Doze, que também buscavam o primeiro lugar e se revoltam contra os dois irmãos! E Jesus chama os Doze e nos chama também a nós, e fala-nos do mundo, com seus jogos de poder, sua ganância, sua hipocrisia e sua mentira... e nos diz: “Entre vós, não deverá ser assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo; quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos. Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”. Aqui está o modelo do caminho cristão: o Cristo, totalmente abandonado à vontade do Pai, totalmente disponível, totalmente pobre... Ele é o modelo de como devemos viver entre nós e em relação ao Pai: no serviço mútuo, na disponibilidade, na confiança no Pai, no abandono ao seu desígnio a nosso respeito. Somente Jesus poderia rezar com toda a liberdade: “Pai, não o que eu quero, mas o que tu queres!” (Mc 14,36). Olhando nossa fraqueza, nossa pouca disponibilidade, olhando quanto na vida buscamos nossos interesses e nossas vantagens, não desanimemos! Sigamos o conselho do Autor da Carta aos Hebreus: “Temos um Sumo-sacerdote eminente, que entrou no céu, Jesus, o Filho de Deus. Por isso, permaneçamos firmes na fé que professamos! Temos um Sumo-sacerdote capaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo como nós!” Confiemos no Senhor e supliquemos que ele converta o nosso coração, dando-nos seus sentimentos, suas atitudes de doação, serviço e humildade, sua confiança no Pai e, finalmente, a graça de participar daquela glória que no céu ele tem com o Pai e o Espírito Santo. +++++ “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida como resgate para muitos”. Aqui Nosso Senhor sintetiza de modo impressionante tudo quanto veio fazer por nós. Ele é o Filho do Homem, Ben-Adam, isto é, aquele que se fez simples homem frágil, feito um de nós, “capaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo como nós, com exceção do pecado”. No misterioso plano do Pai do céu, a nossa salvação tinha de passar pela vinda do Filho, feito pobre homem entre nós, pobres mortais. E não só: toda a humana existência do Filho foi um serviço, um serviço só: “dar a sua vida como resgate para muitos”. Podemos imaginar toda a vida de Jesus, desde a humildade dos nove meses no ventre da Virgem, passando pelos trinta anos de escondido silêncio em Nazaré, pelas andanças, pregações, cansaços, incompreensões, momentos de solidão e de provação... Nada disso foi por acaso, nada disso sem sentido, nada disso sem significado. Era o Senhor dando a vida, era o Senhor nos servindo por uma vida amorosamente entregue ao Pai por nós, humildemente gasta como uma vela que se consome por amor ao mundo. Sua paixão e morte de cruz nada mais foram que a conclusão de uma existência feita toda amor e sacrifício em louvor ao Pai e em benefício dos irmãos! Com este pensamento, escutemos novamente as impressionantes palavras do Profeta Isaías, falando de Jesus, o Servo Sofredor: “O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos. Oferecendo sua vida em expiação, ele terá descendência duradoura e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor”. Vede que a vontade do Pai incluía, de modo misterioso, que nos escapa, essa pobreza, que entrega toda a vida para o perdão dos nossos pecados. Num mundo que por auto-suficiência, por orgulho e cega paixão procura viver a vida do seu modo, pisando no amor de Deus e desprezando seu convite a buscá-lo, o Filho Jesus fez um caminho totalmente inverso: de abaixamento, de amor, de doação, de entrega em nosso favor: “Por esta vida de sofrimento, alcançará luz e uma ciência perfeita e justificará a muitos”. Foi assim, na obediência, no desapego de si próprio, que Jesus se tornou nosso Sumo-sacerdote, nosso Advogado, nosso Salvador, aquele que nos justifica diante de Deus. É ele quem, nos céus, se compadece de nossas fraquezas e nos dá seu divino auxílio. Ele, com seu sangue, isto é, com sua vida derramada a vida toda, intercede amorosamente por nós e é a garantia da nossa salvação! Mas, todo este caminho do nosso Salvador, caríssimos, indica-nos a nós um caminho, um modo de viver, um critério de discernimento. Se o nosso olhar se dirige a Jesus, é como ele que devemos caminhar; devemos andar como ele andou, saindo de nós, de nossos projetos de inspiração tão mundana, para abraçar o pensamento e os modos do nosso Mestre e Salvador. Pensai bem: Qual é a nossa tendência? Qual o nosso primeiro impulso? Aquele dos discípulos: buscar o que nos agrada, procurar os primeiros lugares, ir ao encalço da nossa própria conveniência e comodidade, dar vazão aos nossos prazeres, fazer sempre a nossa vontade... Qual o caminho que o Senhor propõe? Vede que a primeira coisa que ele faz é nos convidar a segui-lo, bebendo na vida o seu cálice e sendo mergulhado cada dia no seu batismo. Em outras palavras: o cristão deve estar disposto a viver sua vida com os mesmos sentimentos de Jesus, isto é, fazer da existência um serviço de amor adorante ao Pai e de entrega aos irmãos. Meus caros, como isso é difícil! É o contrário das nossas tendências, é o inverso do que aprendemos do mundo: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Mas, entre vós, não será assim: quem quiser ser grande, seja vosso servo, e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos”. São palavras que, se levarmos a sério, nos chocam, porque mudam totalmente o nosso modo de pensar e a lógica do nosso coração! E, no entanto, este é o caminho – o único caminho – de Jesus! Na nossa relação com Deus e nas nossas relações com os outros, não pode existir outro modelo, outra medida, outra lógica, que não aquela que o Senhor mesmo nos apresenta com sua existência entregue por nós. É por isso que ser cristão exige um perene caminho de conversão, de sair de nós do nosso jeito para chegar a nós do jeito de Jesus. Aí, sim, seremos realmente livres, seremos realmente discípulos e encontraremos o gosto verdadeiro da vida! Infelizmente o mundo nos tenta seduzir com o prazer sem limite, com a ânsia do poder, com a ilusão do sucesso, com a ganância do ter, do consumir, do supérfluo... Como ser felizes, meus caros, vivendo na superficialidade? Como encontrar a vida verdadeira, colocando o afeto em bobagens? Como ser livres de verdade sendo escravos de tantas trivialidades? Vede que o Senhor nos indica um caminho não fácil, não comum, trivial, óbvio... Ele nos indica o seu caminho, o único que conduz à vida! E nos promete seu socorro, sua ajuda, como diz a segunda leitura de hoje: Ele é “capaz de s e compadecer de nossas fraquezas”, nele podemos conseguir misericórdia e alcançar um auxílio no momento oportuno... Coloquemos nossa esperança em Jesus, agarremo-nos a ele, agasalhemo-nos no seu coração pela oração, a escuta da sua Palavra, a contemplação da sua adorável pessoa, a participação nos seus sacramentos! Deixemos de lado a preguiça, a descrença, a pasmaceira espiritual e corramos com ânimo e alegria seguindo o Senhor! E que ele nos faça sentir, desde agora, a felicidade de viver o seu amor e fazer da vida um cântico de amor a ele, que é bendito pelos séculos dos séculos.

dom Henrique Soares da Costa

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